Ratoeira

15:17:00

Sei que não aguento mais escrever sobre ti. Estás em meus pensamentos e quando tento me enganar achando que já foste embora, ludibriando-me pensando que a esqueci finalmente, lá está você: de vez em quando ri, de vez em quando sorri, até ouço teus gritos, tua voz baixa, mas clara. Ah, você está lá. Por quê? Que assunto podemos ter deixado inacabado para que tua presença continue a me atormentar mesmo eu tendo te posto para fora da casa de minha vida. Como pude? Depois de tudo, eu simplesmente fiz tuas malas e as joguei pela janela, apontei para porta e fechei os olhos para não te ver partir. Tu te foste, mas ainda resiste: está a espreita de minha janela, mesmo que por inconsciente. Talvez eu deva te pedir perdão por te odiar, mas tu sabes que nunca sei o que sinto, e ao invés de tu facilitares esses sentimentos turbulentos só os dificultou, desculpe-me por amaldiçoar o dia que nos conhecemos e por me repreender por ter me apresentado, desculpe por sentir falta do teu abraço, ele era o melhor, parecia seguro, mas era apenas uma armadilha. Sinto tanta vergonha de ter caído nela com um rato cai em uma ratoeira. Ah, maldito ser humano, tão burro quanto qualquer outro animal, a armadilha é a única que muda. Pergunto-me o que devo fazer para que tu te tornes uma lembrança distante, para que finalmente o passado seja referência e não residência. Diabos, como me marcou esse teu fogo em brasa, como ardeu e como arde, como consigo afogar-me em todas essas palavras que despejo desesperadamente procurando ter mais fôlego, procurando ter mais tempo, procurando não me afogar com o gosto salgado que deixaram em minha boca. Pensas em mim? Estou tão presente quanto tu estás? Espero que sim, eu espero que eu infernize tua vida tanto quanto sinto minha vida infernizada por ti. Há dias que é pior, hoje é um deles, tudo me lembra você, tudo me remete a tua carência, tudo me faz querer voltar, mas a armadilha ainda é a mesma e o rato já aprendeu a lição, mas como ele queria estar errado, como ele queria sua décima terceira chance, ah, ele queria que desse certo, mas nunca daria, porque não somos peças do mesmo quebra cabeça, não poderíamos nos encaixar, apenas quebrar e danificar. Ah, como eu queria que o coração acalmasse e se calasse, como queria que os olhos cessam e que as lágrimas fossem guardadas em meu bolso para quem valesse a pena. Não era sua função me causar essa dor, não devia ter sido tu que me ensinaria isso, não devia ter sido tu a me deixar com medo de amar de novo e de me aproximar de alguém, isso não estava no roteiro, mas eu teimei em improvisar. Agora ouço as vaias do público, eles gritam tantas vezes "eu te avisei" que esqueço qual a peça que estou tramando. Como eu quero que essas sejam as últimas palavras remetidas a ti, mas como sei que estou errada e que voltarei aqui para te implorar, para te esquecer e para relembrar. Como sei que hoje dormirei abraçada a tua lembrança e a odiando enquanto a amo e a ensopo com as lágrimas que prometi não chorar.

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