Eu era Lúcia

15:05:00

Meu nome era Lúcia, eu tinha quase 25 anos, costumava trabalhar em uma escola pública à noite, dando aulas de biologia, não era minha verdadeira profissão, eu não havia feito magistério ou me formado com licenciatura, na verdade eu ainda cursava a faculdade, farmácia. O trabalho na escola não era por dinheiro, eu possuía um trabalho remunerado em uma farmácia durante à tarde, mas, em algumas noites, eu era voluntária da escola. As aulas terminavam às dez horas da noite e sem chance eu conseguiria sair antes de todos os alunos desesperados para chegar a suas casa e deitarem em suas confortáveis camas, eu costumava esperar até o fluxo de alunos diminuir para então sair pelo único portão da escola. Eu não possuía carro, nem minha família, havíamos vendido o que tínhamos para pagar um plano de saúde para meu pai. Não ter carro não era um problema, a escola não ficava longe de casa, umas duas quadras, para faculdade eu pegava transporte público e a farmácia onde trabalhava era quase ao lado da escola. Naquele dia ainda era inverno, em uma situação usual meu pai teria pegado o velho chevet do vizinho emprestado e me buscado, porém ele havia sido internado no hospital, estava com pedras nos rins e o quadro não estava bom, mamãe não dirigia e mesmo se o fizesse não poderia, pois estava com ele no hospital. Eu não tinha irmãos ou família na região. Nunca havia sido problema esticar as pernas para chegar a minha casa ou a qualquer lugar, segurei bem minha bolsa e fechei meu casaco até o pescoço, fazia frio e as calças jeans não aqueciam o suficiente. O que eu não sabia era que aquela não seria uma noite comum. Eu havia feito o de sempre, me despedira das secretárias e sai em direção a minha casa, bolsa transversal colada ao corpo, telefone guardado dentro dela, o casaco fechado até o pescoço, mãos no bolso, o caminho usual e iluminado pelas fracas luzes da rua, cantarolava baixinho e sorria sem motivo, afinal eu apreciava o pouco que a vida dava, sempre como se fosse muito. Não havia ninguém na rua, normalmente algumas farmácias ainda estariam abertas ou a locadora da esquina, mas era um mês especial, havia uma festa local e o comércio fechava mais cedo, assim todos poderiam se juntar e comemorar nada. Não havia como eu tê-lo visto, estava bem escondido, atrás da locadora de filmes da esquina, com suas luzes apagadas e as da rua falhando, era o abrigo perfeito para quem não queria ser visto, mas queria ver. Quem sabe eu estava distraída, eu, moça, deveria ser mais atenta aos meus passos e ao meu horário, talvez tivesse sido minha roupa, ou o fato de eu estar desacompanhada. Era tarde para pensar no por quê. Enquanto eu fazia meu caminho corriqueiro ele me agarrara por trás, enroscara suas mãos grossas nos cachos de meu cabelo, tapara minha boca para não fazer alarde, uma prevenção desnecessária, a cidade inteira havia ido para a festa. Tudo aconteceu rápido, não havia cômodo no chão gelado pelo inverno, meus olhos não foram vendados, mas ainda assim não pude o ver, meu rosto foi agredido contra o chão asfaltado e minhas lágrimas o mancharam, minhas roupas foram rasgadas e ele me segurou com força enquanto montava atrás de mim e fazia seu serviço rápido. Eu pude sentir quando sangrei, quando fui violada e quando minha dignidade escorreu para fora de mim, quando ele terminou, para ter certeza de que eu não levantaria me chutou e correu. Eu puxei minhas calças humilhada enquanto chorava, procurei não fazer barulho, não quis mais gritar por socorro, era incrível, mas só o que eu pensava era “O que falarão de mim? O que pensarão? Como pude deixar isso acontecer?”. Levantei-me, com dor, na alma e no corpo, segurei minha bolsa e me abracei contra o frio, enquanto escondia o rosto molhado com meus cachos. Cheguei mais tarde a minha casa, mas meus pais não perceberiam, estavam no hospital. Joguei-me em um banho quente e deitei, não queria mais levantar. No outro dia demorei para levantar, a presença de minha mãe em casa me alarmou, ela havia vindo buscar agasalhos para meu pai e perguntou se eu queria café, sorriu para mim inocente e ignorante de minha situação, beijei sua testa e lhe disse que sabia me cuidar, por mais que quisesse que ela estivesse lá para cuidar de mim, avisei que passaria no hospital depois do trabalho e que levaria um bolo bem quentinho. Quando minha mãe deixou a casa feliz para pegar uma carona com a vizinha eu deixei de ir a aula, não senti vontade de comer, mas arrumei-me com pressa, sem deixar de tomar mais um banho, sentia-me suja. Corri para o posto de saúde logo depois de trancar a casa e alimentar o cachorro. A recepcionista negou-me a pílula do dia seguinte, mesmo depois de eu contá-la o que havia acontecido, meus olhos haviam voltado a chorar, senti vergonha, pois eu não era de chorar na frente dos outros, mas precisava de ajuda. Ela havia se solidarizado, mas estava na lei, não havia muito tempo que havia sido aprovada um tal de projeto de lei estúpido que proibia o fornecimento de pílulas do dia seguinte. Comovida ela tentou me ajudar, aconselhou-me a fazer queixa e disse que se eu fizesse a BO poderia conseguir o aborto legal, caso “o pior acontecesse”. Agradeci sua ajuda, mas não havia sido nada. Após sair do posto de saída procurei nas farmácias, tentando pagar por meu direito, todos aconselharam a polícia, porém eu não podia confiar neles e saber que a culpa foi minha, eu não queria ser mais um caso arquivado que não levaria prioridade, não queria ouvir repressões de alguém que não entendia a dor. Eu só queria uma solução e então seguir em frente. Precisei de tempo para pensar, sentia que não havia mais saída para mim. Por que eu? Perguntei nos primeiros dias após meu pesadelo. Por que eu? Entre tantas mulheres por que eu havia sido escolhida? Havia sido minha cor? Meu cabelo? Raça? Roupas? O que eu poderia ter feito para que isso acontecesse comigo?! Demorei mais algumas semanas sentindo pena de mim mesmo e desejando a todas as mulheres que passavam por mim que tivesse sido elas e não eu, mas então eu pude perceber, que a culpa não era minha e a culpa não era nossa, a culpa era de quem havia nos ensinado a não ser estuprada, mas não havia ensinado ao cara que fez isso comigo a não estuprar. Agora já era tarde demais e eu era uma de muitas. Mais algumas semanas se passaram, tentei voltar a rotina e fingir que nada havia acontecido, porém eu ainda tinha vergonha quando, nua, via-me no espelho, ainda tinha vergonha de lavar meu corpo que agora já parecia não pertencer a mim. Todo dia, quando escolhia minhas roupas, mesmo sabendo que a culpa não era delas, eu tentava achar algo que encobrisse meu corpo inteiro, que não fosse provocativo. Afastei-me de homens amigos e temi ser professora de homens, atravessava a rua quando estava prestes a cruzar com um, eram todos potenciais estupradores. No fim do mês posterior àquela noite fiz um teste de gravidez para finalmente tirar isso de minha cabeça, achei que o sinal negativo era só o que eu precisava para seguir meu caminho, contudo o sinal nunca veio, o positivo sorriu para mim, como se dono da melhor notícia do mundo. Ele deveria ser. Aquilo deveria ser o que eu veria na noite mais feliz de minha vida, deveria ser aquilo que me faria chorar de alegria e dizer-me que eu estava no caminho certo e que eu estava fazendo algo lindo. Mas não era nada disso. Ele havia tirado isso de mim naquela noite. Aquela criança não podia nascer. Não podia nascer para sentir-se rejeitada pela mãe, não poderia nascer para procurar suas origens e descobrir que não houve amor, não poderia nascer para saber que não deveria ter nascido, não podia nascer para ir ao mundo em um futuro incerto, não podia nascer porque não tinha culpa. O aborto era ilegal, a pílula do dia seguinte era ilegal, decidir sobre meu corpo era ilegal, então eu tinha que ser esperta. Procurei por ajuda na internet e com amigas, acontece que uma de minhas amigas conhecia um cara, ele estava cursando obstetria e seria exatamente o que eu precisava. “Não tenha medo”, ela me disse, “Eu confio plenamente nele, e você confia em mim”. E eu confiava, ela estaria lá comigo, havia prometido, e eu não teria o que temer, de lá eu começaria uma vida nova. Havia chegado a hora de contar para meus pais, não porque eles deviam saber, mas porque mereciam. Cheguei ao hospital, minha mãe sorriu no quarto e me abraçou, perguntou sobre meu dia e eu fui direta ao ponto, segurei a mão do meu pai e abri o jogo, disse que precisava conversar com eles, que precisava de ajuda, os dois sorriram e garantiram que estariam lá para mim sempre que eu precisasse. Mas não foi assim. Minha mãe gritou e derrubou seu copo de água, meu pai entrou em choque, minha mãe disse que eu manchei a família e precisava ir embora, meu pai não conseguia falar, fui expulsa do quarto e os enfermeiros vieram, eu, então corri, para meu destino final. Minha amiga estava lá, como disse que estaria, ela segurou minha mão até que eu fosse chamada para entrar, não havia fila de espera, nem nada assim, mas havia uma preparação e esterilização dos instrumentos. O doutor era simpático, apertou minha mão e disse que eu não merecia isso, disse-me que o país negava a nós nosso direito básico e que ele faria o que pudesse para mudar, não exigiu dinheiro, mas exigiu que eu soubesse que meu corpo era meu. Sorri e tentei confiar nele, mas mesmo assim doeu quando tive que me abrir para ele. Não havia outro jeito. Eu me deitei naquela maca, não estava pronta, mas deveria estar. Isso tinha que acabar, e finalmente acabou, mas eu nunca mais segui em frente. Eu nunca mais levantei daquela maca.

TALVEZ VOCÊ SE INTERESSE POR...

0 comentários

Subscribe