Deixou as lágrimas escorrerem. Espremeu os olhos e olhou para baixo. Não era porque permitiu que suas lágrimas escapassem que queria que alguém visse.
Estava em um auditório cheio, agradeceu pelos poucos olhos focados na apresentação das colegas de classe e pelos demais olhos cansados se fecharem, ou encararem o chão.
Uma amiga a olhou feio, não por mal, mas porque queria ajudá-la, e ela apenas afastava as pessoas. Logo perto dela estava o melhor amigo, praticamente adormecido, tudo bem. E o garoto perfeito logo ao lado dele, bufando, achando tudo uma droga. O dia dele devia estar uma merda tanto quanto a dela.
Sentiu o olhar de um dos colegas, que descobriu seu segredo, lhe perfurar a nuca.
Ela queria correr dali, queria se esconder em algum lugar confortável, queria o abraço de sua irmã, ou de alguém que realmente a amasse, mas todo mundo estava distante, ninguém estava com ela, não realmente. Ela sentia falta do amor que nunca chegava a ela.
Queria que o melhor amigo a abraçasse, queria que o garoto que lhe perfurava a nuca com olhares falasse que estava tudo bem, queria que o garoto perfeito estivesse com ela, queria que a amiga não tivesse lhe lançado aquele olhar que só a fez afundar.
Ela queria outra vida.
Abusava da ingratidão.
Chegou em casa ostentando o sorriso falso, nem os livros, seus melhores amigos, a acolheram, ela não conseguiu se concentrar neles.
Almoçou, e se sentiu errada, a comida descia como facas pela sua garganta, protestando. “gorda”, gritavam. Jogou-se na cama, agarrada ao gato que se esquivava dela, nem ele poderia ficar com ela.
Adormeceu.
O sonho lhe dizia as claras coordenadas do que a aguardava.
Dor, choros, ódio, rancor.
Um copo de suco misturado com vodka, ela gostava assim, alguns remédios, vários, ingeriu todos. Ela deixou o gás vazar e trancou a cozinha, deitada no chão, abraçada pela morte.
Acordou, decepcionada por ser apenas um sonho, por ainda não ter coragem para acabar com a humilhação e a vergonha.
O mais próximo que chegava disso era quando abria sua caixinha, cumprimentava as amigas com um sorriso e deixava-as acariciar seus pulsos ou coxas. As lâminas a abraçavam de um jeito especial que aliviava, por pouco tempo, e nunca suficiente a dor.
Após terminado limpou a bagunça, suspirou com um sorriso doloroso no rosto e então se sentou a frente do computador e escreveu este texto.