Hey, Brownies (foi o
melhor que consegui pensar), tudo bem com vocês?
Como
a Tag #ContandoExperiênciasdeLeitura estava esfriando, decidi reviver a
terrível experiência que foi ler Um Bonde Chamado Desejo. Mentira, não foi tão
ruim, de todos os péssimos livros que li esse não chega nem perto de ser o
pior. Contudo, eu não estava feliz em lê-lo, afinal quem fica feliz com uma
leitura obrigatória? (Se bem que, se fosse Harry Potter, eu ficaria bem feliz).
Vocês
sabem como isso funciona, normalmente quando leio algum livro para a disciplina
Teoria da Literatura (Felizmente, já finalizada) ou quando a obra em questão é
pequena demais, como Animais Fantásticos e Onde Habitam, eu trago para vocês
como foi lê-los em vez de focar em resumir suas histórias.
É
claro que para partilhar como se deu o processo de leitura, e como me senti
lendo-o, eu preciso contar um pouco da história, por isso darei uma rápida
pincelada nesta obra de Tennesse Williams.
A
história, para ser sincera, não é muito empolgante: não temos narrador, pois se
trata de uma peça de teatro dramatizada. Como protagonista temos Blanche
Dubois, que, para falar a verdade, lembra muito as mulheres do realismo que, ao
invés de idealizadas, eram expostas, especificamente, pelos seus defeitos. O
que é verdadeiramente curioso é que o próprio autor fez a declaração “Eu sou
Blanche Dubois”, o que, claro, só é possível de se compreender após realizar
uma breve leitura sobre sua biografia – porém não quero me desviar do caminho.
Blanche é uma mulher vaidosa, extremamente preocupada com a sua beleza, que
acredita estar se extinguindo aos 30 e tantos anos. Falida, ela muda-se para
Nova Orleans, para morar com sua irmã, Stella, e o marido polaco, Stanley. Vou
dizer para vocês que essa foi uma péssima ideia, a coitada realmente não tinha
para onde fugir, e seu santo obviamente não bateu com o do cunhado, visto que
era uma troca de grosserias para todo o lado – e a irmã, perdidamente
apaixonada, embora tentasse pintar Blanche como uma boa pessoa e entender suas
dores, só sabia defender seu marido que, ao meu ver, era um monstro.
Não
sei se contei para vocês, mas todos os livros que minha professora de
Literatura passou para nós ao longo do semestre envolviam uma triste deploração
da mulher – o que, como vocês devem imaginar, me deixou irada, afinal como a
mais feminista da banda ia se portar se não querendo tacar o livro na cara da professora
que pagava uma baita pau para todos os livros que tratavam mulheres como
inválidas, meros objetos a serem explorados?
Com
Um Bonde Chamado Desejo não foi diferente, o sexismo estava ali, impregnado em
cada página, estava em um marido violento que agredia a mulher e depois “sentia
muito”, que a tratava como uma ovelha burra, que desferia comentários
agressivos a cunhada e que se rebelava quando suas vontades não eram atendidas;
estava na deterioração da protagonista por ter recorrido a prostituição para
pagar suas contas; estava na fala dos homens ao não considera-la “mulher para
casar”; estava na violação de seu corpo; estava na falta de credibilidade que
deram a ela quando ela revelou ter sido estuprada – o que aconteceu? Foi
internada em um manicômio.
Vou
ser honesta, como sempre sou com vocês, desta vez não tive raiva do autor –
como aconteceu em Uma Criatura Dócil e Do Amor e Outros Demônios – acho que a
leitura corrida em sua vida altamente perturbadora me ajudou a simpatizar com o
coitado e vê-lo muito mais como uma vítima da sociedade do que um agressor dela
em si – e, como já dito antes, ele se vê como Blanche, a vítima, e não Stanley,
o agressor. Acredito, também, que ele seja um bom escritor, pois conseguiu
direcionar minha raiva ao seu antagonista, como deve ser. Fiquei extremamente
desgostosa e triste ao acompanhar o desfecho da história, não bastava minha
raiva pelo jeito como tratavam as mulheres – não apenas Blanche, mas todas que
ousam a clamar um pedaço da cena durante a peça – precisava também que o final fosse
extremamente desmotivador. Meu senso de justiça, mais forte do que tudo o que
conheço, enlouqueceu ao ver que o certo havia sido posto de lado, o que, na
verdade, eu devia saber que aconteceria, afinal o que eu esperava? Que acreditassem
na mulher e prendessem o culpado? Pff, por favor, em que sociedade utópica isso
acontece?
Não
quero me alongar muito e também não me atreveria a dizer que a obra não é
importante, afinal para ter sido adaptada para diversos teatros ao redor do
mundo ela deve representar algo, contudo a falta de justiça me faz querê-la bem
longe de mim e, com certeza, não vai ser um dos livros que trabalharei com meus
alunos. O que eu posso fazer? Eu quero uma sociedade justa e não será dando
livros que trazem exemplos como esses que conseguiremos, especialmente se, no
fim, não tratamos de problematizar toda a injustiça da trama.