Um Bonde Chamado Desejo

12:41:00



Hey, Brownies (foi o melhor que consegui pensar), tudo bem com vocês?
Como a Tag #ContandoExperiênciasdeLeitura estava esfriando, decidi reviver a terrível experiência que foi ler Um Bonde Chamado Desejo. Mentira, não foi tão ruim, de todos os péssimos livros que li esse não chega nem perto de ser o pior. Contudo, eu não estava feliz em lê-lo, afinal quem fica feliz com uma leitura obrigatória? (Se bem que, se fosse Harry Potter, eu ficaria bem feliz).
Vocês sabem como isso funciona, normalmente quando leio algum livro para a disciplina Teoria da Literatura (Felizmente, já finalizada) ou quando a obra em questão é pequena demais, como Animais Fantásticos e Onde Habitam, eu trago para vocês como foi lê-los em vez de focar em resumir suas histórias.
É claro que para partilhar como se deu o processo de leitura, e como me senti lendo-o, eu preciso contar um pouco da história, por isso darei uma rápida pincelada nesta obra de Tennesse Williams.
A história, para ser sincera, não é muito empolgante: não temos narrador, pois se trata de uma peça de teatro dramatizada. Como protagonista temos Blanche Dubois, que, para falar a verdade, lembra muito as mulheres do realismo que, ao invés de idealizadas, eram expostas, especificamente, pelos seus defeitos. O que é verdadeiramente curioso é que o próprio autor fez a declaração “Eu sou Blanche Dubois”, o que, claro, só é possível de se compreender após realizar uma breve leitura sobre sua biografia – porém não quero me desviar do caminho. Blanche é uma mulher vaidosa, extremamente preocupada com a sua beleza, que acredita estar se extinguindo aos 30 e tantos anos. Falida, ela muda-se para Nova Orleans, para morar com sua irmã, Stella, e o marido polaco, Stanley. Vou dizer para vocês que essa foi uma péssima ideia, a coitada realmente não tinha para onde fugir, e seu santo obviamente não bateu com o do cunhado, visto que era uma troca de grosserias para todo o lado – e a irmã, perdidamente apaixonada, embora tentasse pintar Blanche como uma boa pessoa e entender suas dores, só sabia defender seu marido que, ao meu ver, era um monstro.
Não sei se contei para vocês, mas todos os livros que minha professora de Literatura passou para nós ao longo do semestre envolviam uma triste deploração da mulher – o que, como vocês devem imaginar, me deixou irada, afinal como a mais feminista da banda ia se portar se não querendo tacar o livro na cara da professora que pagava uma baita pau para todos os livros que tratavam mulheres como inválidas, meros objetos a serem explorados?
Com Um Bonde Chamado Desejo não foi diferente, o sexismo estava ali, impregnado em cada página, estava em um marido violento que agredia a mulher e depois “sentia muito”, que a tratava como uma ovelha burra, que desferia comentários agressivos a cunhada e que se rebelava quando suas vontades não eram atendidas; estava na deterioração da protagonista por ter recorrido a prostituição para pagar suas contas; estava na fala dos homens ao não considera-la “mulher para casar”; estava na violação de seu corpo; estava na falta de credibilidade que deram a ela quando ela revelou ter sido estuprada – o que aconteceu? Foi internada em um manicômio.
Vou ser honesta, como sempre sou com vocês, desta vez não tive raiva do autor – como aconteceu em Uma Criatura Dócil e Do Amor e Outros Demônios – acho que a leitura corrida em sua vida altamente perturbadora me ajudou a simpatizar com o coitado e vê-lo muito mais como uma vítima da sociedade do que um agressor dela em si – e, como já dito antes, ele se vê como Blanche, a vítima, e não Stanley, o agressor. Acredito, também, que ele seja um bom escritor, pois conseguiu direcionar minha raiva ao seu antagonista, como deve ser. Fiquei extremamente desgostosa e triste ao acompanhar o desfecho da história, não bastava minha raiva pelo jeito como tratavam as mulheres – não apenas Blanche, mas todas que ousam a clamar um pedaço da cena durante a peça –  precisava também que o final fosse extremamente desmotivador. Meu senso de justiça, mais forte do que tudo o que conheço, enlouqueceu ao ver que o certo havia sido posto de lado, o que, na verdade, eu devia saber que aconteceria, afinal o que eu esperava? Que acreditassem na mulher e prendessem o culpado? Pff, por favor, em que sociedade utópica isso acontece?

Não quero me alongar muito e também não me atreveria a dizer que a obra não é importante, afinal para ter sido adaptada para diversos teatros ao redor do mundo ela deve representar algo, contudo a falta de justiça me faz querê-la bem longe de mim e, com certeza, não vai ser um dos livros que trabalharei com meus alunos. O que eu posso fazer? Eu quero uma sociedade justa e não será dando livros que trazem exemplos como esses que conseguiremos, especialmente se, no fim, não tratamos de problematizar toda a injustiça da trama.

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