Setembro Amarelo, eu te amo, mas...
23:27:00
Setembro tornou-se um dos meus meses favoritos no momento em que eu descobri a existência do Setembro Amarelo, que para quem não sabe é o mês de prevenção ao suicídio, uma onda parecida com Outubro Rosa e Novembro Azul.
Setembro além de ser, supostamente, especial para todos os brasileiros pela independência do Brasil e, para meu povo gaúcho, um mês de tradição para nos lembrar da Revolta dos Farrapos, é também um mês dedicado, nacionalmente, a prevenção do suicídio e a divulgação do 141, o serviço responsável por ligações de pessoas com pensamentos depressivos.
Quem está na minha lista de contatos mais próxima sabe que eu já tive a minha jornada por esse vale e que muitas vezes ela me puxa de volta, mas, diferente de antes, eu conquistei a força de me reerguer, de procurar ajuda, eu aprendi que falar é a melhor solução. Afinal, uma dessas conversas pode salvar uma vida.
Contudo, o post não é sobre isso, como vocês podem perceber pelo meu título extremamente intuitivo. Eu não estou aqui para dizer o que toda essa campanha maravilhosa já tem dito, eu estou aqui para dizer algo que talvez ela tenha deixado de lado: não só fale, escute.
Perdi minha conta de quantas vezes não me senti bem-vinda para desabafar, menosprezando meus problemas, diminduindo-os e não lhes dando a devida importância que eles deviam receber: não importa quão pequeno é seu problema, a intensidade de seus sentimentos pode ser milhões de vezes maior e é aí que dorme o problema. Você não tem controle sobre a força que os seus sentimentos lhe atingem. Por mais que o Setembro Amarelo esteja aí, falar sobre nossos problemas ainda é um tabu. Quantas vezes vocês já ouviram que os problemas da sua mente não são reais?
"Ansiedade? Você não tem isso! É só pensar positivo" "Depressão? Eu não acredito nisso" "Você já tentou se esforçar um pouco?".
Como se gostassemos do lugar onde nossa mente nos leva às vezes. Como se não nos esforçassemos todos os dias para sair de lá, para dizer que "não temos" isso e podemos agir como pessoas normais. Porém é exatamente aí que está: pessoas normais se desesperam, choram, gritam, sentem raiva, amor, medo, dor, angústia, ansiedade. Pessoas normais sentem. Ser anormal é fingir que não sente nada ou que sua felicidade dura as 24 horas dos 7 dias da semana. Isso não é ser normal, então, por favor, parem de insistir que é.
Eu sei como é sentir-se sem ninguém para conversar porque o que você está sentindo será, provavelmente, tratado como drama.
"Nossa você só reclama!"
Sei porque estou no mesmo barco que toda sociedade, porque quando alguma amiga vem me reclamar do mesmo problema pela 100° vez eu penso "Que saco", sei porque já pensei que fulano era dramático, sei também porque já chutaram minha bunda por ser dramática demais. E isso dói. Faz você querer cavar uma cova para tudo que você deixa morrer aí dentro.
Por isso tomei para a mim a melhor atitude que eu poderia tomar: não me importa o tamanho do seu problema, não me importa se ele poderia ser muitas vezes pior, me importa como você se sente naquele momento, por mais que eu ache que você já devia ter resolvido esse limão que a vida te deu, ou pense "puta, que saco", eu vou estar lá para te ouvir mesmo quando ninguém estiver e, mesmo que eu não tenha os melhores conselhos, eu vou conversar até que você se sinta, pelo menos, 1% melhor.
Faz muito tempo que eu decidi parar de ter vergonha de meus problemas mentais, aceito meu Transtorno de Ansiedade Generalizada e Depressão com os quais luto todos os dias, aceito os danos que eles trouxeram previamente na minha vida e que continuarão trazendo e sou aberta sobre os flagelos que me causei, vou contar, se perguntar, quantas vezes pensei em escapar e em todas as alternativas que me arrisquei a tentar, meus motivos para desistir e meus motivos para persistir, mesmo que cave em algum lugar que eu prefira esquecer. Porque se teve algo que me ajudou foi ouvir histórias daqueles que andaram nesses mesmos sapatos e conseguiram descalça-los e, assim, talvez, você também consiga ajuda.
E é assim que deixo esse texto, esclarecendo que, sim, as pessoas vão te achar dramático e menosprezar seus problemas, mas isso não deve te impedir de falar, o importante é que você não os menospreze e ache alguém que não os menosprezará com você, que ao contrário disso lhe dará importância e ficará do seu lado até quando nem você mesmo se aguentar.
E, para finalizar de verdade, Setembro Amarelo é maravilhoso, mas vamos parar com essa hipocrisia de ignorar o assunto, e aqueles que precisam, o ano todo, para só em Setembro se manifestar no seu perfil do Facebook. A cada dia pessoas morrem vítimas do suicídio, em cada 40 segundos, no Brasil, alguém se mata e em 90% dos casos isso poderia ter sido evitado. Os suicídios não são exclusivos do mês de setembro.
Estou aqui para desabafos, não apenas esse mês, mas o ano todo.

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