Cara Metade - Madelaine D’Emons

09:12:00

Ás vezes não sei como começar um texto, ás vezes não faço idéia das palavras que quero botar no papel, então elas me atormentam, dia e noite, noite e dia, sem conseguir dormir ou fazer qualquer coisa, porque os pensamentos não deixam, e nunca irão deixar, a não ser que eu os ponha aqui, no papel. Bem, dessa vez eu sei como começar o texto, eu sei que esse texto não é para ninguém, se não para mim, sei que de tanto consolar, agora posso ser consolada, plenamente sozinha, minhas palavras me consolarão. Primeiro, eu não sei dizer quando as coisas saíram do lugar que estavam, e estavam lá, muito bem, tudo estava bem, na verdade, até algo mudar, e eu ainda não sei se foi dentro de mim ou se veio do lado de fora. Eu não sei dizer quando desabei novamente, e nem porque isso aconteceu, não sei explicar como minhas estruturas caíram ou como eu as deixei cair. Eu não sei de onde veio, mas levei um tiro e ele me desmontou como desmontaria um espelho, deixando-o em caquinhos que por mais que você tente, não ficarão como eram antes. Acho engraçado que quando você está plenamente feliz não se lembra do que é tristeza, e quando está afundado na tristeza não se lembra nem do gostinho doce da felicidade, não adianta pensar nos dias felizes, pois eles não serão nada, se não lembranças nostálgicas. Pode pensar no futuro, e em como gostaria que ele fosse feliz, pode montá-lo inteiramente, diante de seus olhos, mas não fará nada, se não cair em nostalgia novamente. Parece um labirinto cruelmente manipulado para que caia em armadilhas peçonhentas que lhe farão esquecer quem é, ou o que quer ser. E talvez tenha sido alguma dessas armadilhas, ou talvez seja real, mas você estará sozinho. Ah, que besteira a minha, por que uso tanto o pronome você? A pessoa em questão aqui sou eu. Queria lhe fazer ver o que acontece dentro de mim, mas parece que nada funciona como funcionava, e não consigo mais ser clara como era. Tudo o que eu queria saber era para onde fui, e quem é essa que vos escreve em meu lugar? Gostaria de saber como me tornei tão não eu, como tornei-me má, como tornei-me fria e porque me tornei apenas aos pedaços, e não inteiramente? Estou cansada de ser isso, mas ser aquilo também. Por que não posso ser apenas um? Como carrego duas pessoas tão distintas dentro de mim? Como posso amar com todas as minhas forças e odiar com todas elas também. Eu gostaria de ser apenas uma, e muitas vezes queria ser a que não sente nada, porque eu prefiro não sentir, a sofrer. Isso pareceu extremamente masoquista para você? O que ousa julgar? Prefere sofrer? Isso sim não seria masoquismo? Eu sei do que falo, sei muito bem o que é sofrer, seja pouco, seja muito, seja nada, sei que dói e não quero isso de novo, parte de mim não deseja isso a ninguém, a outra parte quer que queimem em sofrimento. Como posso saber qual sou eu de verdade? Mas, ora, qual o problema de ser as duas? Bem, eu sofro pelas duas, e uma dose de sofrimento para mim já é mais do que o suficiente, mais do que eu suportaria novamente. Parte de mim bota a culpa nas pessoas, no mundo, mas o que seria se não mentira? Ou uma meia-verdade? Como posso culpar os outros por cansarem de mim, se eu mesmo já cansei? Como poderia cobrá-los algo? Cobrá-los para ficar comigo, entender-me, ajudar-me e curar-me, se nem eu consigo fazê-lo. Essa parte bota a culpa inteiramente em mim, e sente uma raiva imensa, que nem cabe nesse corpo. Talvez seja por isso que sou duas. Um dia me disseram que eu parecia ter um coração de pedra. Ah, minha amiga, não sabe como eu gostaria que você estivesse certa, porque eu me lembro, e me lembro bem, da época que eu o tinha e como eu gostava, como gostava de ser uma muralha, era claro que, eu esquecia que toda a muralha tem seus buracos e falhas. Atacaram-me ali. Gostaria que o mundo parasse de parecer tão errado, e de ser errado, pois quando se trata do mundo uma parte minha fala mais forte que a outra, pois talvez, elas tenham a mesma opinião sobre isso. Eu só queria o fim da injustiça, queria paz, igualdade. Por que nunca está bom? Por que sempre mais? Por que não se contentam com o que conquistaram? Por que as pessoas ultrapassam o sinal vermelho? Ignoram um mendigo? Discriminam alguém diferente, mas que na verdade, é seu semelhante? Por que matam em nome de Deus se há a incerteza de que Ele existe? Se existisse gostaria Ele de tudo assim? Dessa infelicidade? Não acredito que Ele deixaria esse mundo desgraçado cair em infelicidade, se tanto falam da bondade dele, por favor, provem. Talvez eu devesse mostrar isso para alguém, se você está lendo, obrigada, mas será que faço o certo? Será que eu devia ter mostrado a você? Deixar você saber o que eu penso e deixar você livre para me julgar? Qual parte de mim fala agora? Será que eu quero que você me diga algo? Será que quero que fique quieto? Será que quero que elogie meu texto? Bem, por favor, não fique quieto, isso eu tenho certeza que nenhuma das minhas partes querem. Vejo o quanto elas divergem todos os dias, mas vejo o quanto convergem. Podem ter certeza que mesmo banhada em ódio quero a felicidade, quero um mundo justo e quero uma noite tranqüila. As duas partes querem ser alguém, mas não alguém que fez um texto bonito e sim alguém que pode mudar a vida de outro alguém e que conseguiu fazer o mundo melhor, porque, sinceramente, ele tem muito o que melhorar. As duas partes não querem ser a garota que sentem a tristeza, mas agora as duas estão sentindo, e uma odeia, já outra, não a ama. Esse é outro grande ponto para nós duas, o que realmente é amar? Porque eu não acho que saiba, eu não me lembro de ter amado alguém sem tê-lo odiado também. Nunca sei qual parte de mim está no comando, mas sei que nenhuma das duas queriam estar. E eu sei onde elas queriam estar, longe, bem longe, muito longe e ouvir simples palavras que mudariam tudo “Era uma vez um recomeçar...”.

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