Beijo Da Morte
15:55:00
Aquela noite foi a primeira noite em que, quando a escuridão cobriu o dia como véu, o barulho dos trovões me assustou, provocando o efeito contrário que sempre provocava. Trovões sempre foram reconfortantes aos meus ouvidos, mas naquela noite eles eram ameaçadores, como se tivessem não apenas o som, mas uma forma, e a mais terrível de todas.
Encolhi-me e tapei os ouvidos, era como se eles soassem ao meu lado, como se cada vez chegassem mais perto, e mais perto de mim. A chuva junto com o vendaval faziam os galhos, que mais pareciam garras, bater em minha janela, arranhando-a, e fazendo-me estremecer. Eram como unhas em uma lousa. Um raio cortou o céu, como se o separasse em dois, sua luz, sempre fascinante, chegou até mim e eu não pude deixar de admirá-la, meus momentos de calma não duraram muito.
Outro trovão soou, sem piedade, esse me fez fechar os olhos e murmurar em desespero um pedido de ajuda. Nunca vou saber para quem foi aquele pedido, ou porque o fiz. A sensação de perda começou a crescer em meu peito que parecia não aguentar aquela melancolia. Desejei com todas as forças aplacá-la de meu jeito, jeito que apenas magoaria quem eu menos quero magoar, mal eu sabia que em algumas horas isso não faria importância. A ideia teve de ser apagada, a força, de minha mente. O choro começou a se formar em meu peito, o lábio começou a tremer, e eu o mordi com força, até senti-lo sangrar. O bolo de choro começou a seguir um caminho usual: Meu peito, minha garganta, atingiu a boca explodindo em soluços e os olhos explodindo em lágrimas grossas. Agarrei os joelhos ainda deitada.
Como um bebê comecei a chorar, olhando os raios com um receio enorme de fechar os olhos, mas , também, com receio de deixá-los abertos.Senti algo se aproximando, foi como das outras vezes, mas dessa vez era mais forte. Temi desviar o olhar dos raios, mas temi mais continuar encarando-os. Com a coragem que pude reunir arrisquei meu olhar para trás. Não havia nada, nada sólido. O ar fugiu, quase se esvaiu por completo, pude jurar que os pulmões murcharam. Meu coração quase parou, e eu tive de piscar para recuperar os sentidos. Na parede do quarto uma sombra se projetou com o raio, havia apenas uma pessoa, na companhia de uma faca, afiada, e com a aparência de mira planejada. E onde eu deveria estar, foi onde a faca acertou. Arfei e fechei os olhos para depois abri-los. Toquei meu peito, eu estava bem, olhei para o céu lá fora e depois para a parede, a sombra sumira. Deveria ter sido uma ilusão do sono.
Voltei a me aconchegar na cama, mas meu peito doeu, uma pontada me fez parar, tentei tocá-lo, mas um afiado punhal de prata impedia meu contato direto. Desta vez o ar não voltou aos meus pulmões,o coração não voltou a bombear o sangue, e o ar que se esvaiu foi completo. Eu tentei lutar a procura dos sentidos, mas eu sabia que era uma luta perdida. Por alguns minutos fechei os olhos e ao invés de trovões ouvi o som de meu coração, cada vez mais baixo, cada vez mais lento. Abri, pela última vez, os meus olhos, desejando ter a última vista, não importava de quê. Eu sabia perfeitamente bem o que acontecia ali. Quando abri meus olhos novamente pude focalizar um vulto preto que se aproximava de mim, se fosse esta outra situação poderia brincar comentando ser a dona morte, porém a dona morte não possuía o que o tal vulto possuía.
A ultima coisa que vi antes de perder os sentidos da visão foi o par de olhos esmeraldas que brilhavam mais que qualquer outra coisa. A última coisa que pude sentir foram aqueles lábios carnudos selaram-se aos meus. Em um beijo eterno, em um beijo da morte.

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